arapiraca: o fumo, a feira e o luxo

Uma das coisas mais belas que existem é poder estar vivo e acompanhar de dentro, nas bordas e por fora o fazimento de uma cidade, e de sua memória. Minha memória de criança lembra de uma cidade pobre, pouco alimentada de futuro. Mas isso ficou lá para os anos 70 e 80 do século passado. Primeiro lembro muito bem da cultura fumageira, onde quase todas as casas se dispunham a receber uma boa quantidade de tabaco bruto para o processo de destalação. As plantações de fumo estavam nos quatro cantos da cidade, em nove de cada dez sítios, a lavoura do fumo estava presente, até que nos anos 80 começa a perder força. Os plantadores levavam para muitas residências enormes “móios” de fumo, e cada família juntava-se no processo de destalação. O cheiro forte do fumo invadia a casa, e o gás na quebra do talo nos fazia chorar. Depois de juntar folha a folha havia a pesação: ganhávamos dinheiro com isso, pouco, mas ajudava famílias inteiras. Nos meses agosto e setembro a cidade enchia-se do odor do tabaco e as calçadas com montanhas de talos da última noite de trabalho. Juntava-se toda a família no processo. É bom lembrar que foi a cultura fumageira que nos legou o maior e mais prestigioso clube da cidade, o Fumicultores, que recebia a alta roda da cidade, também espaço dos primeiros bailes e boites que a cidade viu. O clube era sinônimo de sofisticação e poucos conseguiam uma carteira de sócio. O fumo pode ser visto assim como parte de nossa alma, meio pelo qual Arapiraca tornou-se uma cidade possível.

Junto a cultura do fumo, como que para assegurar a circulação de riquezas que começavam a serem construídas, tinhamos a feira-livre toda segunda-feira. Era uma feira enorme, avançava por quase todo o centro da cidade, e era muito heterogênea, tinha de tudo. Assim como a cultura fumageira fomentou as primeiras fortunas da cidade, assim também a feira produziu nossos primeiros empresários. Nossa feira era considerada uma das maiores do nordeste e foi lastro de trabalho e renda para muitos arapiraquenses. A feira-livre ensinou a negociar e abriu novas oportunidades de iniciativa privada local. A feira é certamente mãe de uma centena de empresários hoje bem sucedidos da cidade. A movimentação da cidade e o modo como essa cidade foi chamando a atenção dos moradores das cidades vizinhas abriu-nos a possibilidade de sermos um polo comercial importante. Toda segunda-feira chegavam aqui centenas de carros com milhares de pessoas que vinham comprar em nossa feira. Vinham comprar alimentos, artigos domésticos, ferramentas, adornos, artesanatos, e tudo o que se pode imaginar. As bancas de roupas, de carne, de doces, de fumo, de jóias, de calçados, de verduras, e de tantas coisas que a memória peca em relembrar. Além das coisas vendidas a feira era espaço de cultura, com emboladores e suas violas, apresentações de palhaços, números circenses, dançarinas, e outras diversões. A feira potencializou nosso destino comercial, deu-nos a chance de ser muito do que hoje somos, seu espectro hoje resume-se a feiras locais (como primavera, baixão e brasília) pois não há mais a grande feira, que foi progressivamente substituídas por lojas para atender a crescente demanda por ambientes mais qualificados ao consumo da crescente classe média da cidade, o coroamento disso hoje é a chegada do shopping, como o ápice de uma trajetória crescente de desenvolvimento comercial.

Como na foto abaixo, tirada nesta madrugada de sábado para domingo, com os primeiros sinais do amanhecer. me veio à memória o papel da feira e do fumo como alimentos que possibilitaram a cidade avançar em direção ao futuro. A própria arquitetura pobre e amadora começa a dar lugar a construções mais elaboradas, mudando nossa paisagem. Quando olho essa foto do centro me deparo com a volúpia desse desenvolvimento, de uma cidade acanhada para um novo centro onde pululam oportunidades de futuro. A única obrigação que temos é elevar o nível da divisão de riquezas entre nós para que a prometida garantia de futuro nos coloque de fato no caminho de uma comunidade avessa à pobreza. Arapiraca é um oásis de luxo e riqueza no meio da árida paisagem de pobreza dos nossos vizinhos. E ainda nos falta muito para garantir que não retrocedemos e que demos a base para que as gerações vindouras façam de Arapiraca uma comunidade invejável, por ser espaço de produção de riqueza, de educação, de arte e de criatividade. Queremos ser, e estamos a caminhar, com alguns deslizes, mas estamos atentos.

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arapiraca: o fumo, a feira e o luxo arapiraca: o fumo, a feira e o luxo Reviewed by davy sales on domingo, agosto 24, 2014 Rating: 5

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