movimento arapiraca segura vai às ruas

Aconteceu nesta sexta-feira, 6 de junho, uma passeata organizada pelo Movimento Arapiraca Segura. Trata-se de um movimento apartidário, encabeçado por advogados e empresários da cidade. Não é um movimento social popular, assemelha-se mais aos movimentos burgueses. Apesar de ser na origem um movimento elitista, conquistou muitas pessoas a aderir a passeata desta sexta, com uma grande manifestação.

Cheguei da manifestação contra a violência na cidade. Acho que a passeata teve êxito: o de levar dois ou três mil pessoas às ruas do centro (alguém sugere outro número?). Mas eu estranhei o desenho e o clima; pareceu-me que 8 de cada 10 que marchavam eram advogados, juizes, marçons, empresários, estudantes de direito. Vi o Quintela Cavalcanti mandar uma ala de estudantes. Também tinha donas de casa e aposentados. Algumas empresas mandaram os funcionários. O comércio praticamente fechou, liberando alguns trabalhadores para a passeata. Muitos jovens da nossa classe média (cheirosa e fina) estavam lá. Não senti clima de luta mas uma passeata formal. Não senti clamor popular, não senti qualquer ligação com movimentos sociais, ao contrário, o peso do evento era a magistratura local, a OAB, o CDL, a PM, os empresários, e acho que a Igreja Católica também entrou. Foi bonita a passeata porém com pouca alma de luta por mudanças.


O movimento deveria crescer para discutir e entender a violência. Mas quando no carro de som avisaram que era apenas marcha, e que no final no parque Ceci Cunha não haveria falas ou discursos pois "ninguém falaria porque não adianta falar mais" então entendi o esvaziamento da luta por uma formalidade. Essa formalidade parece ficar muito clara no uso de camisetas-padrão para a manifestação, o que pareceu-me uma passeata de fardados, bem distante de um clima de luta. Em algum momento a música que tocava no carro-de-som que acompanhava a passeata dava um certo tom destoante, quero dizer, alegre.


Na passeata vi de camiseta do movimento um dado senhor que no Fora Collor da década de 90, junto com outros homens de bem, espancaram um amigo meu que gritava na mesma praça Marques contra o Collor. Memória é uma coisa gratificante. Daí procurei o povo pobre, moradores dos novos conjuntos habitacionais da cidade, certamente os que mais são atingidos pelos regimes de violência diária mas não estavam na passeata. Não estavam. Era uma passeata sem alma. Era uma passeata da classe média e alta pedindo segurança. Legítima ela é, embora falte-lhe uma proposta mais ampla sobre violência.


A passeata não era do povo das periferias que sofrem a eterna violência (a violência dos assaltos e assassinatos nas esquinas, a violência policial-estatal, a violência da falta de estrutura para viver com decência). O que disse "sem alma" porque enquanto acompanhava fotografando eu ouvia o carro de som falar de "central de inteligência da policia na cidade", "mais policiais", "já falamos com o governador" o que me pareceu essa coisa de passeata formal para receber mais polícia, etc. Claro que devemos nos unir para pedir paz, agora eu fiquei a me perguntar de qual violência a passeata estava a marchar? Isso porque jamais a cidade parou para gritar contra o extermínio de pobres da periferia, aquela juventude invisível que acessam as piores escolas, não tem espaço de lazer, que pegam os piores empregos, que juntam-se ao tráfico, as pequenas gangues, etc... Pensar em violência é questiona-la e tentar entender porque ela cresce. Não basta falar que o governador mandará mais polícia pois a paz da comunidade é uma construção do coletivo não de um pequeno numero de ilustres advogados, empresários e instituições do capital. A paz é possível, cessar o grosso da violência é possível, mas é preciso antes sentar para conversar porque a violência cresceu entre nós. A única saída é entendê-la, não apenas abafá-la com camburões e paracetamol.


Antes da passeata, deveríamos fazer reuniões comunitárias, discussões, entendimentos de impasses. Tem que ser uma agenda das familias, do povo, dos trabalhadores. Um documento que mapearia as violências e as experiências exitosas nessas áreas. Só então faríamos a passeata, com consciência sobre o que estaríamos lutando e aonde desejaríamos chegar. Nesta movimentação parecia claro um movimento burguês do tipo cansei.
movimento arapiraca segura vai às ruas movimento arapiraca segura vai às ruas Reviewed by davy sales on sábado, junho 07, 2014 Rating: 5

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