memória de uma praça

Uma cidade constrói-se lentamente, tijolo por tijolo, casa por casa, prédio por prédio, rua por rua. Mas uma cidade não é apenas feita de casas e prédios. Digamos que as casas servem de abrigo para seus moradores, os prédios como espaço para trabalhadores. Mas a cidade é feita também de espaços onde pode-se descansar e procurar um tempo de lazer e distração. Esse lugar é a praça. E as praças são aquelas zonas entre a casa e o trabalho, lugar onde estamos sempre de passagem, lugar de encontrar amigos, sentar, observar o movimento, trocar longas conversas sobre a vida e seus initerruptos problemas cotidianos.

A praça Marques da Silva, no centro da cidade, é um espaço de longa memória. Desde os primeiros anos da cidade esta praça era o marco zero, o centro nervoso da vila que pedia o estatuto de cidade. Nela a cidade respirou suas alegrias e suas tristezas e foi nela que a cidade pensou em ser mais do que uma pobre cidade do interior nordestino. A praça Marques foi sempre sinônimo de lugar onde a nossa identidade esteve sempre presente. Lugar das primeiras reuniões de cidadãos, lugar das residências dos fundadores da cidade, lugar da primeira igreja, lugar dos primeiros comércios, do primeiro cinema. Lugar que marcou a vida dos locais, lugar que colocou a cidade no ritmo do progresso e do seu futuro.

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Praça Marques Hojepcmarqueshj

Ela já teve grandes jardins, já teve fonte luminosa, já sofreu dezenas de transformações arquitetônicas, de modo que carrega em suas veias a própria dinâmica de transformações que a própria cidade viveu. A praça Marques é o sistema circulatório da cidade. Hoje mais do que nunca. A praça é lugar de reunião do povo, do encontro entre amigos, da passagem de estudantes e trabalhadores, dos protestos e festas políticas, da passarela para ver e ser visto, do lugar que orienta os quatro cantos da cidade, que orienta o fluxo de carros e pessoas pelas artérias da cidade.

Hoje ela encontra-se bem esquecida pela prefeitura e câmara de vereadores, apesar de sua espetacular importância para a identidade social, cultural, política e econômica da cidade. Nas suas últimas décadas sofreu várias intervenções que, grosso modo, foi retirando cada vez mais espaço de convivência civil para receber quiosques de lanchonetes, café, bares e floricultura. Mas esse ano vimos estupefatos a prefeitura autorizar a derrubada de bancos da praça para dar lugar a um quiosque de sorveteria de luxo. Temos que ter cuidado com isso pois a praça acaba por tornar-se uma contradição: ao invés de lugar de contemplação (cada vez menos flores e verdes) para um lugar de comércio (cada vez mais loteado por comerciantes).

O comércio na praça não é de todo um mal. O café expresso da praça, por exemplo, já tornou-se um bem cultural para muitos dos seus frequentadores. O problema é que a cidade tem um padrão nocivo em suas praças. O parque Ceci Cunha, por exemplo, é loteado também por quiosques, roubando áreas de convivência e lazer para quem o procura. No novo bosque das arapiracas vê-se uma dezena de quisques de lanchonetes em seu percurso. Raramente vemos praças na cidade onde não haja sequer um comércio sobre ela que sequestra o espaço verde, os espaços de descanso. Nossa prioridade deve voltar ao que a praça Marques foi em suas primeiras décadas, uma praça-parque, um lugar para iluminar a beleza local, um lugar para o descanso e para o lazer.

Fotografias: a foto atual é uma colagem de três fotografias minhas (Davy Sales), as fotos com datas das décadas passadas,  um recorte de fotografias do acervo da Câmara Municipal.

memória de uma praça memória de uma praça Reviewed by davy sales on quarta-feira, maio 22, 2013 Rating: 5

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