a invenção da tradição

Quando Roy Wagner escreveu A invenção da cultura propôs explicar as formas pelas quais os homens inventam e mantém suas tradições culturais. O traço forte de sua teoria é a tomada de consciência da inventibilidade como uma das questões mais presentes e centrais para os seres humanos. Assim, foi relendo Wagner e lendo ou ouvindo sobre o que vai acontecer em nosso carnaval que resolvi tecer algumas considerações sobre nossas festas. Toda tradição é invenção. Há um tempo de criação e repetição ritualística que evoca a presença de uma tradição: de tanto uma coletividade humana festejar uma data, persona ou episódios, traz à tona uma identidade, uma memória coletiva. Assim, apesar de toda tradição ser uma invenção num dado tempo e espaço, não retira dela sua verdade e legitimidade para os quais esta tem sentido.

Viva o São João

As festas juninas são nossa maior tradição. Desde os tempos fundacionais nossa comunidade sempre acendeu e lembrou os três santos católicos em junho (Santo Antônio, São João e São Pedro) com fogueiras na frente das residências. Todo junho a festa se repete espontâneamente, isto é, por ter se tornado uma tradição, anualmente, em junho, a cidade pega fogo com suas fogueiras, comidas à base de milho, fogos de artifícios e forró. As festas acontecem em milhares de residências e movimenta o parentesco e a vizinhança daqueles que abrem suas portas para o forró e a comilança junina. Há uma década, ou mais, a prefeitura resolveu apoiar a tradição junina da cidade. Agora anualmente é lançado edital de concurso de quadrilhas juninas e premiação da rua mais enfeitadas e das quadrilhas mais paramentadas para o São João. Temos então uma programação que dura pelo menos vinte dias de festas, cada dia numa rua, numa comunidade. A tradição eram as fogueiras e milho assado nelas em rodas familiares, de risos, cantorias e conversas. A tradição fomentada pelo poder público é aquela que nos tira de casa para assistir o espetáculo nas ruas e praças. Logo, o desenho junino que se estabeleceu entre nós é um misto de festas privadas com festas públicas, o que parece ter dado um novo gás para esta antiga tradição. Mas há um incoviniente, qual seja, pelo crescimento da cidade, a tradição de acender fogueiras diminuiu muito e já não as vemos em todas as portas. Mas a memória destas estão muito vivas e a cada junho quando a fumaça toma conta das noites dos santos, nós também nos enchemos de alegria e afeto junino.

Viva o Carnaval

Outra tradição são as festas carnavalescas. Digamos que o carnaval tem um desenho e um peso diferente das festas juninas. Mas vejamos um pouco de nossa memória. Nos anos 70, quando eu era ainda criança, lembro perfeitamente da alegria que atravessava nossas casas durante os festejos carnavalescos. Nossa vizinha costumava invadir nossa casa com talcos e jogar o pó em nossa cara, com gritos e risadas de alegria e anarquia próprias desse tempo. Quase todas as crianças ganhavam dos seus pais uma bombinha de lançar água. Era uma algazarra, talco, guinchos d´água, alegria que durava alguns dias. Nessa época o bumba-meu-boi aparecia, e causava medo e admiração, aquele boi colorido vestido de xita barata. Era uma alegria intensa, e para completar, a zabumba também nos chegava. Áqueles senhores tocando seguindo o boi. O Clube dos Fumicultores fazia bailes, baile para os jovens (Matiné) e para os adultos (Gala). Muito confete, serpentina e lança-perfume davam o tom e a alegria da festa. Éramos então ávidos prestigiadores de marchinhas de carnaval tradicionais e antigas. Então não me sai da memória a Escola de Samba 30 de Outubro. Naquela época tinhamos uma agremiação carnavalesca própria e que dava um show a parte nesses festejos. A década de 90 sepultou esse carnaval popular e livre. O silêncio e as viagens à praia nos últimos carnavais deixaram a cidade vazia e inanimada. Foi o tempo de festas como micaretas, onde grupos privados vendem os amigerados abadás, contratam bandas de axé e pagam seguranças para impedir o tom popular do carnaval. E essa tradição soteropolitana de carnaval fechado em blocos privados continua a se impor, mas algumas novidades surgiram no horizonte. No início dos anos 2000 a ong Candeeiro Aceso compra para si o dever de refomentar nossa festa carnavalesca e aos poucos vai montando um calendário de blocos de rua acompanhados de frevo. Um dos pontos fortes desse projeto de reinvenção da tradição foi não sucumbir aos famigerados blocos-de-abadás e cordas, preferiu-se insistir nas fantasias e no frevo. Na edição desse ano espera-se pelo menos o desfile de 30 blocos, o que nos dá a dimensão de que estamos recriando e alimentando para o futuro uma tradição que estava por desaparecer.

2 de fevereiro

A festa da padroeira é a mais antiga tradição entre nós. Minha memória revela a antiga rua do Comércio, com um parque de diversões que ia do hotel real até a rua do peixe. Era um tempo muito esperado. Todo mundo circulava no parque durante uma semana que culmina com a procissão da padroeira da cidade nossa senhora do bom conselho. O parque mudou de lugar, para o largo dom fernando gomes, nos anos 90, e a festa começou a perder o fôlego. Hoje o parque é armado no ceci cunha. O antigo parque era mais contagiante porque armado nas entranhas da cidade, hoje há esse desenho de parque com grades e apartado do povo. Uma novidade recente, talvez uma década de idade, é o cortejo de vaqueiros que seguem até a cidade de bom conselho em pernambuco e trazem de lá a imagem da santa que chega na tarde da procissão. É muito bonito de se ver e a procissão leva milhares de pessoas pelas ruas do centro.

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a invenção da tradição a invenção da tradição Reviewed by davy sales on domingo, janeiro 20, 2013 Rating: 5

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