o fim do carnaval

AAAACarnaval

Era 1979. E o carnaval tomava os espíritos dos arapiraquenses. Lembro com muita saudade aqueles dias quando nossa vizinha invadia minha casa com talco de pó jogando em todos, naquela maior algazarra e alegria carnavalesca. Depois íamos na casa deles com lanças-de-água e molhávamos todos. Por todos os lados homens travestidos e muita alegria nas transgressões. Por todos os lugares festejávamos a chegada do carnaval como um tempo de inversões e gozos permanentes. Pelas ruas da cidade jovens fantasiados visitavam amigos chamando para a alegria dessa época. Á tarde íriamos à matinê carnavalesca do Clube dos Fumicultores, que era delicioso, um baile de máscaras ao som do frevo e das marchinhas tradicionais. Esse clima era voluptoso e agradabilíssimo. Era uma época de folclore, confetes e serpentinas. Havia lança-perfume, não usávamos lóló. Ansioso ficava esperando o desfile da escola de samba 30 de outubro, que era uma atração esperada, tinha samba no pé e nos tambores. Foi um tempo maravilhoso. Foi-se o tempo de festas propriamente populares. O comércio de Abadás coincide com o fim do folião carnavalesco. E o que me entristece é observar todas as prefeituras apoiando a privatização da festa popular. Que se devolva ao povo a construção da festa. Que se dê ao povo as ferramentas da carnavalização da vida.

Acima, a folia de rua. É 2012. O carnaval não toma mais o espírito carnavalesco dos arapiraquenses. Vejo com certa tristeza esses dias de carnavais ordeiros e privados, onde as pessoas não bricam mais com vizinhos e a alegria é apenas para quem compra uma farda para pular dentro de um rebanho uniformizado. É o famigerado abadá. Agora só brinca quem paga por esses horríveis fardamentos padronizados. O modelo do carnaval no interior do nordeste (morte da fantasia e investimento em abadá) destrói o carnaval. É uma paisagem triste, pois estas pessoas passam o ano inteiro como rebanho, no carnaval, quando é para subverter tudo, vestem fardas e andam dentro de cordas. E a festa se tornou um espaço de exclusão com viés racista-classista. Os pagantes tem a farda (o contrário da inventividade e subversão carnavalesca) e seguem um trio. Os que não pagam pelo uniforme acompanham de fora e são chamados de pipoca. O modelo de festa baiana, que sustenta o descarnaval soteropolitano envenenou nossa liberdade de festejar.

Acima, o prefeito entrega a chave da cidade ao Rei Momo e à Rainha do Carnaval. Sinais do resgate da festa. É certo que há uma preocupação local para o resgate do nosso carnaval. Vários blocos saem ultimamente às ruas, apenas por um dia, misturando fantasias, frevo e abadás. As fantasias são para uma minoria enquanto os abadás uma obrigação para os atuais foliões. Esse modelo de festa é triste porque organizada visando o lucro privado dos grupos que a organizam. Vejo com alegria a insistência de alguns grupos, como a ONG Candeeiro Aceso, a escolha do Rei Momo e o retorno ao frevo como uma possibilidade de reconstruir a alegria dos antigos carnavais. E espero que nos próximos carnavais, aos poucos, possamos expulsar a crescente privatização da agenda carnavalesca e devolvermos ao povo a construção popular da alegria. O carnaval não é apenas festa de blocos, ele traduz-se melhor por um certo espírito de anarquia, subversão da ordem e alegria contagiante. O carnaval é o tempo das liberdades negadas e restritas. É o tempo para recriar as alegrias negadas no labor diário de nossa vida cotidiana em busca de sobrevivência.

Salvador destruiu o carnaval. O Rio de Janeiro tem carnaval para gringo vê. Recife é o único e último carnaval do mundo. Arapiraca deve mirar no modelo recifense, de festas amplamente populares, descentralizadas e multicultural. Que o carnaval seja visto como uma festa que traduz nossa grandeza e alegrias, que o carnaval não deixe de ser o espaço da nossa desconstrução, quando atravessamos todas as fronteiras morais e sociais, e por três ou quatro dias, carnavalizamos o mundo e nos sentimos livres e inteiros. O carnaval é a nossa alma, que não se trancafie esse mana nas gavetas dos empresários e interesses do capital. Dê as costas às falsas festas carnavalescas, insista em brincar o carnaval livremente.

o fim do carnaval o fim do carnaval Reviewed by davy sales on segunda-feira, fevereiro 13, 2012 Rating: 5

Um comentário:

Laura disse...

O carnaval de rua do RJ é muito bonito, vai muito além das escolas de samba! Vários blocos, por diversos bairros da cidade, não deixam a tradição morrer! Vale a pena conferir o que existe além da Sapucaí!

Davy Sales (2012). Tecnologia do Blogger.