a invenção da cidade violenta

Primeiro, para esclarecer, chamo de “invenção” o fenômeno da violência local porque esta tem tradição. Ela é inventada na medida em que poucos esforços se tem oferecido nesse campo. Vivemos tradicionalmente a denúncia da violência, mas poucas ações para entendê-la e enfrentá-la. “Invenção” porque pretende-se apenas observá-la como espetáculo, naturalizando-a. Arapiraca é uma cidade violenta. Somos a terceira em Alagoas e entre as cem cidades mais violentas do Brasil. Isso já nos dá a dimensão do problema que persiste por décadas, sem qualquer intervenção pontual do poder público local.

Para quem vive aqui, essa violência não parece tão presente, visto que a maioria das vítimas são jovens, pobres e moradores da periferia. De modo geral, a sensação é de uma cidade segura – para além do que os números estatísticos nos revelam – onde é possivel viver bem. As mortes violentas tem lugar na periferia da cidade e envolve largamente o tráfico, as gangues, a vingança e os crimes de latrocínio e de encomenda. Como ela não atinge diretamente a maior parte dos moradores, há também pouca percepção sobre os estragos causados por essa violência à nossa vida social.

Arapiraca, complexa, não é para principiantes

Viver em Arapiraca tem um sabor de estarmos em uma comunidade humana que está passando por intensas transformações. As mudanças são no crescente aumento de renda dos moradores, na elevação do nível de educação, na reconstrução do desenho do urbio, no intenso e perceptível aumento populacional, no crescente domínio sobre todo o interior alagoano, e tantas outras variáveis que apontam em direção a uma cidade que está a se tornar uma cidade de porte médio com bons indices de crescimento econômico e de qualidade de vida.

Certamente que há pecados não confessados, como uma persistente parcela da população abaixo da linha de pobreza, áreas degradadas na periferia, alto índice de analfabetismo funcional (principalmente entre adultos) e pouca ou baixa redistribuição da riqueza produzida pela economia local. Mas há um certo movimento federal em busca de acabar com a miséria (PAC2) que deverá ajudar muitíssimo a cidade, incluindo toda a população esquecida pela economia, pela escola e pelo governo.

O desenho da violência local

A violência é uma constante das sociedades humanas. Não há comunidade onde a violência não atravesse seus interesses em algum momento. A questão básica é o que deveríamos fazer para diminuir o seu impacto e modos de fazer com que ela não interfira na qualidade de vida dos moradores. Como vivemos numa sociedade do espetáculo midiático, as situações de violência são as principais manchetes dos jornais. Quanto mais sangue, quanto mais dor, tanto mais atenção tem esses veículos. Mas nós precisamos pensar a violência desde outro viés. As estatísticas nos mostram que Arapiraca é uma cidade violenta. No quesito assassinatos de jovens entre 15 e 24 anos somos a vigésima-sétima cidade do Brasil onde mais jovens foram mortos. Nesse cenário somos a terceira cidade mais violenta de Alagoas. Na tabela abaixo, número de jovens mortos anualmente.

2003 29
2004 27
2005 51
2006 46
2007 85
2008 57

O que esses números nos dizem, e o que nos ensinam? Em primeiro lugar uma baixa capacidade de acompanhar o estado da arte da vida dos jovens, notadamente os que vivem na periferia. Se o nível de violência juvenil é alto, não há, de todo modo, acompanhamento direto sobre como essas situações de violência são construídas e alimentadas. Precisamos ir lá no nascedouro desses acontecimentos para poder interferir no sentido de curar a ferida, de oferecer novos horizontes para a juventude esquecida. A taxa de homicidios no estado de Alagoas (conforme mapa abaixo) também mostra Arapiraca com alto índice de homicídios (na faixa de cidade com 29,2 até 107,2 homicídios em cada 100.000 habitantes).

Paz comunitária e fim da guerra contra os jovens pobres

É sabido entre nós que por aqui não há o fenômeno de bala perdida. Estamos num espaço onde as mortes são de aluguel, encomendadas, de vingança. É uma tradição machista, que remete a honra. Recentemente acrescentou-se à isso as mortes causadas por desavenças internas no tráfico de drogas, que mata jovens cotidianamente. Por fim, temos um incremento no múmero de mortes por latrocidas. Cercear essa violência e conhcecer sua lógica poderia nos fazer incidir sobre ela, atacando as deficiências de respeito, solidariedade e reciprocidade nessas comunidades onde a violência tornou-se lugar comum. Pergunte-se o que querem esses jovens? Por que se envolvem com o crime? Por que são suas vítimas? Ao invés de pedir mais polícia e mais força, precisamos abraçar essa juventude agredida e construirmos com ela a cidade que é boa para todos.

O que nos parece claro é que os novos polos de crescimento no Interior e sua consolidação nos anos 90, resultado de novos arranjos econômicos que fizeram emergir novos polos que atraíram investimentos, trabalho, migrações, e também, diante das deficiências da presença do Estado e da Segurança Pública, aumento da criminalidade e da violência. É de se observar, também, que os homicídios de jovens em Alagoas tem um traço racístico: de cada dez jovens assassinados, nove são negros.

O crescimento de Arapiraca, portanto, trouxe com ele parcela significativa de aumento da violência. É nesse momento que precisamos de mais inteligência e menos força para lidar com a crescente (e alimentada) onda de violência que vez ou outra nos atravessa. A violência residual é uma constante nas sociedades humanas, mas a violência pulsante, como nas mortes dos nossos jovens, pode ser enfrentada, enfraquecida e desconstruída. Esta é uma ferida pronta para ser questionada, mas estamos numa comunidade com baixa capacidade de movimentação política, o que ajuda na constância e crescimento do fenômeno da violência entre nós.

a invenção da cidade violenta a invenção da cidade violenta Reviewed by davy sales on quinta-feira, julho 21, 2011 Rating: 5

Nenhum comentário:

Davy Sales (2012). Tecnologia do Blogger.