são joão: a reinvenção da tradição

Arapiraca sempre foi uma cidade atenta às tradições juninas. Durante o mês de junho as casas sempre acenderam fogueiras para os três santos: Santo Antônio (12), São João (24) e São Pedro (29). Desde nossa tenra infância a imagem das fogueiras na frente das casas, a fumaça embriagando a cidade, os fogos de artifícios e as comidas típicas desenharam uma tradição que perdura até hoje. Mas o processo de intensa urbanização tem cessado um pouco a força desta tradição. Já não vemos mais tantas fogueiras, e as festas familiares são em menor número. Ainda assim, aquilo que sobrevive como época junina ainda fomenta o nosso imaginário, e todos os moradores continuam a valorizar esse tempo junino.

Não tive acesso a nenhum dado sobre o impacto no turismo local. Imagino que a programação junina tem trazido turistas à cidade, tanto quanto tem alimentado o setor hoteleiro e de gastronomia locais. Se a programação junina se estabelecer como uma constante, é certo que esta festa trará dividendos para Arapiraca. Eleva a cidade ao patamar de roteiros turisticos juninos, alimenta a rede de hotéis e pousadas, dá visibilidade aos bares, restaurantes e boites da cidade, movimenta o ritmo dos táxis e mototaxis. Aumenta o fluxo de visitantes diários e possibilita a vinda de familiares para comemorar a festa na casa de parentes. Toda a cidade ganha. E se mirarmos o futuro, o desenho é bom, e bastante promissor. Talvez a secretaria de turismo tenha dados sobre isso, mas ainda não foram publicados no site da prefeitura.

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Tão forte é essa tradição que os horários do comércio, das indústrias, das escolas e de outras instituições são afetados diretamente por esses três feriados no mês de junho. Fora do nordeste isso não acontece. Aqui, é comum nessa época entrarmos nas empresas e os funcionários, e a loja, estarem vestidos para o São João. Os funcionários se vestem caraterizados de “matutos” – cores extravagantes, brilhos, chapéu-de-palha, fitas, e as empresas anunciam o tempo festivo. A alegria comunitária mostra-se como uma possibilidade viável, conduzindo-nos a um estado de identidade e harmonia social. A perda da força popular pode ser visto pelo processo de urbanização, que coloca as fogueiras cada vez mais para os bairros periféricos, ou pelo aumento de cultos evangélicos que colocam a comemoração junina num espaço de proibição e marginalidade eclesial.

Outras variáveis também entram em jogo para a perda de força da tradição junina. É aqui onde penso, o trabalho da prefeitura, na gestão atual prefeito Luciano Barbosa, fez valer a força do empenho público em reconstruir a tradição. E uma tradição só sobrevive quando há quem as guarde e lhes dê legitimidade. Também é legitimo que o poder público alimente aquilo que orienta nossa identidade cultural, apesar de esta ser viável apenas quando a comunidade a festeja. A comunidade arapiraquense sempre comemorou esse tempo – o tempo junino, nada mais saudável do que oferecer lastro e apoio para que esta festa, e os seus sentidos e significados, alimente as novas gerações. É assim mesmo que uma tradição persiste e é levada para o futuro. Se as novas gerações souberem honrar esse tempo, então a arapicanidade poderá ser sentida a cada mês de junho dos anos vindouros.

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Se o São João vem perdendo suas cores e dimensão popular e familiar, isso se deve a vários fatores, entre eles alguns que acabo de citar. O interessante nesse processo é observar que há vários anos a prefeitura pegou para sí a tarefa de reconstruir essa tradição. Tem produzido concursos de resgate das quadrilhas juninas, com uma programação específica para esse fim, e percebemos quanto bem isso tem feito para a cultura local. A extensa programação também tem alimentado shows coletivos de forró tradicional com sanfoneiros no Mercado do Artesanato e produzido uma programação de shows de bandas de conhecidos cantores nordestinos com trabalho reconhecido nacionalmente (este ano nos visitou Fagner e Elba Ramalho, apenas para citar alguns). É obvio que é preciso aplaudir tais interferências públicas para que uma tradição tão longa, e que alimenta nossa identidade, não desapareça. A iniciativa pública nesse quesito foi essencial. Se pudermos manter uma programação de festejos juninos, é provável que outros setores de iniciativa privada se juntem, colaborando para o aumento da agenda e dos investimentos. Temos tudo para sermos uma referência junina como Caruaru e Campina Grande, resta-nos prestigiar, alimentar e acompanhar tais iniciativas. E viva São João.
Recortes de fotografia: Avatar São João (Prefeitura de Arapiraca) e Fogueira (de Ramon Lamar)
são joão: a reinvenção da tradição são joão: a reinvenção da tradição Reviewed by davy sales on terça-feira, junho 28, 2011 Rating: 5

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