arapiraca: qual patrimônio cultural?

No último mês assistí ao imbróglio desenhado com a saída do secretário de cultura e a assunção do vice secretário ao posto principal. Muitos comentários utilizavam a tag #Tocommedoluciano no twitter para discutir as saídas. Como os comentários foram poucos criativos, contentando-se em repetir “Sr. Prefeito, Cadê a cultura?”, “A cultura quer sobreviver”, não se avançou no debate. E nesse momento nem há mais debate. É o vazio do movimento cultural na terra de Manoel André.

Certamente que os artistas locais precisam de apoio e deve haver algo fora de lugar para tantas reclamações. Em reunião, os artistas e produtores culturais escreveram uma carta-documento endereçada ao prefeito Luciano Barbosa (leia aqui) onde expõem preocupações sobre o futuro da secretaria de Cultura. Se autodeclaram de “Movimento Cultural” ainda que não haja clareza na densidade ou solidez desse movimento. No documento elencam como preocupações principais: a) Escolha de um gestor com ligação notável com o Movimento Cultural, b) implementação de uma rede de Pontos de Cultura, c) Investimentos em favor dos artistas e de estruturas físicas, d) lançamento de editais para premiar projetos culturais e e) Aprovação de legislação, fundo e conselho municipal de cultura. Ao ler o documento percebo a validade e a plausibilidade das questões apontadas pelos artistas.

O que me intrigou nesse fato é a questão do significado da cultura. Talvez mesmo uma preocupação ligado ao meu métier de antropólogo, tão mergulhado em discussões mais teóricas sobre o conceito. Um primeiro problema, me parece, o foco exagerado do “Movimento Cultural” com a arte musical e teatral. A música e o teatro não encerram a cultura, estes são apenas um dos seus múltiplos tentáculos. A cultura (no sentido de uma secretaria pública) tem que dar conta dos patrimônios imaterial e material. Para uma secretaria de cultura, seu papel principal deve ser o de guardiã dos nossos patrimônios: isto inclui desde os tradições folcloricas até a nossa arquitetura. As cantigas, as orações, as festas, as comidas, a indumentária, as falas, os jeitos.

O recém-inaugurado Museu Zezito Guedes é uma benção à nossa memória, mas é também prova cabal de que a secretaria precisa avançar no campo da cultura local. O acervo do museu é histórico, não tem preocupações com a imaterialidade, por exemplo. Há um belo acervo fotográfico, mas ainda não temos um museu que abrigue nosso patrimônio cultural em seus vários aspectos. Onde estão as menções ao nosso folclore ligados as danças e canções de nossas festas religiosas? Onde estão os acervos materiais dos nossos salões de destalação de fumo? Onde está a menção à nossa culinária? Alguma lembrança de nosso apetite por progresso? Porque não lembrar da feira-livre? E a memória dos nossos primeiros moradores? Onde ficam os registros dos imigrantes? Alguém já viu um acervo ou memorial sobre nossa educação? São múltiplos os registros e as possibilidades de abordagem do fenômeno cultural entre nós.

Ontem pudemos ler uma notícia de que a Secretaria da cultura estaria “disponibilizando” filmes sobre a vida indigena. Mais uma vez, a lista mostra essa incapacidade técnica da secretaria. A lista mostra filmes de cineastas indígenas mas inclui o inusitado “Deu a louca na chapeuzinho”. Ao ler temos a impressão de que a secretaria continua funcionando com amadores. Os especialistas em cultura erudita e popular, além de experts em cultura negra, indígena e nordestina estão fora das discussões e da produção de uma agenda. É patente a fragilidade com que essa secretaria caminha, o que dá vazão e legitimidade ao Movimento Cultural que pede por mudanças.

Como observador, insisto na falta de sensibilidade para com os bens culturais da cidade, e uma incapacidade quase congênita para explorar eventos culturais que nos coloque no sofisticado universo da cultura popular brasileira. Apesar de tudo isso, a secretaria já acertou em muitos projetos, como o das festas juninas e o som do mercado. O que falta é mais empenho em produzir uma agenda que seja próxima do nosso patrimônio, sem que haja uma preocupação exagerada com o espetáculo. A secretaria deve estar junto a comunidade que é produtora de cultura. Toda casa, toda família, toda comunidade e toda a cidade produz cultura. É preciso então aprender a localizar esse patrimônio e procurar preservar os traços mais caracteristicos de nossa identidade em eterno devir. A cultura está em todas as partes, é nossa respiração e o sentido de nosso existir.

arapiraca: qual patrimônio cultural? arapiraca: qual patrimônio cultural? Reviewed by davy sales on terça-feira, abril 19, 2011 Rating: 5

2 comentários:

lopesdasilvadavid disse...

Excelente a análise!
Os especialistas e experts em cultura normalmente não são ouvidos ao se tratar burocraticamente os assuntos da cultura. Isso em qualquer lugar, é claro. E o site da lista de filmes da prefeitura tá até engraçado nessa mistura...
Abraço!

lopesdasilvadavid disse...

Sinal disso é a praticamente nenhuma menção à Cultura na Agenda 21 do município. Detectei apenas meia página de texto, na p.38; e a 'Estratégia 5', que, no curto prazo, prevê apenas as "iniciativas culturais atadas aos interesses do capital" (isto é, completa omissão do estado!), mas uma bela promessa para os dez anos seguintes...

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