observando as contradições arapiraquenses

A Secretaria de Educação municipal ganha prêmios e selos do Unicef pela qualidade de sua educação, mas os professores da rede municipal são mal remunerados e desmotivados (há anos os professores da rede pública aguardam a publicação do Plano de Cargos e Carreiras, mas a prefeitura não libera). Apesar da implantação de algumas escolas de tempo integral (o que, diga-se de passagem, é uma ótima notícia), ainda estamos vivendo com escolas (do 5o. ao 9o. ano) mal estruturadas e sem condições básicas para o desenvolvimento dos alunos. A notícia de que a Escola Walter Bezerra teve 0% de evasão, tira o foco do Caic, que teve uma taxa altíssima de evasão, mas não foi noticiado (alunos migrando da rede municipal para a estadual);

Nos orgulhamos de ser uma cidade que cresce acima da média das cidades nordestinas, mas nunca equacionamos a redução da miséria e da exclusão social, tão presentes entre nós. Áreas como Manoel Teles, Cacimbas II, Primavera, Brasiliana, Brasília, Baixa Grande, Baixão, Cavaco, São Luiz II, Boa Vista, entre outros, são exemplos da falta de atenção. O crescimento de bolsões de pobreza, a presença de grupos em situação de vulnerabilidade social e o aumento de grupos ligados ao uso do crack não tem tido um acompnhamento com estudos de enfrentamento de maneira adequada. Nas praças e ruas centrais o aumento de pessoas se utilizando de técnicas da mendicidade é crescente (crianças e adultos). Parece-nos que a secretaria de Assistência Social está aquém do entendimento de como a pobreza e marginalização dessas populações são construídas e alimentadas. Só para lembrar: pobreza e violência não são naturais, é possivel desconstruí-las, basta vontade política, políticas públicas e ciência social para enfrentá-las;

A Uneal, única universidade que foi construída na cidade (antes da Ufal) foi sempre prestigiada como símbolo da nossa educação superior, mas viveu quarenta anos de tédio e (sub)desenvestimentos, somente agora ela começa a tomar ares de academia, com a gestão do reitor Jairo. Com a vinda da Ufal e a reestruturação da Uneal é provável que a cidade obtenha bons frutos a médio prazo. Se Arapiraca quer se comparar a Campina Grande ou Caruaru, deve começar hoje a ampliar sua oferta de ensino público universitário (a maior parte dessa demanda tem sido recebida por faculdades privadas, como IESC e CESAMA – além de uma dezena de faculdades não-presenciais) e abrir-se para a pesquisa pura e aplicada. Já somos a referência na RMA e para todo o agreste e sertão de Alagoas, mas precisamos fazer com que nossas instituições de ensino superior interfiram, de maneira direta, no avanço da ciência, da qualidade de vida comunitária e na projeção do nosso futuro;

Nossa classe média adora mostrar sinais de riqueza e ascensão social, exibindo carros do ano, jóias e estilo cosmopolita, mas é provinciana e boa parte é semi-alfabetizada, não lê livros, não vê arte e é incapaz de pensar a contemporaneidade. O estilo de vida de nossa classe média tem se dado mais entre churrascarias e bandas das calcinhas – que misturam sexo, machismo e álcool. Os jarbinhas são a cara da nossa juventude: carros de som potentes, com música de latrina em volume máximo. Raro entre nós observar comportamentos civilizados quando estão em jogo as identidades e comportamentos dissonantes da cartilha da moral provinciana. O comportamento vassalo e subalterno dá o tom das relações sociais entre o povo e as “autoridades”. De modo geral o comportamento dos homens é extremamente machista e desabonador para as mulheres (e outras minorias). E não raro observo senhores da “alta sociedade” babando quando garotas semi-adolescentes passam por eles nas praças, uma pedofilia sutil que faz-de-conta não existir;

Os políticos locais aparecem sempre como pessoas que acreditam na cidade e vivem para encontrar soluções para os desafios comunitários, mas preservam sempre o status quo, fazem alianças espúrias e jamais apóiam a cidadania plena de todos no acesso as riquezas aqui produzidas. Basta observar a nossa Câmara de Vereadores para entender que os partidos ali são meras cartas no jogo de ver quem tira mais vantagens. Vá ao site da Câmara no link Contabilidade para ver que eles não prestam contas ao povo, porque o link leva ao site transparência do Governo Federal, não as contas da Câmara de Arapiraca. Isso é lamentável.

observando as contradições arapiraquenses observando as contradições arapiraquenses Reviewed by davy sales on quarta-feira, março 23, 2011 Rating: 5

3 comentários:

Anônimo disse...

Impressionante como consegue expressar com plena fidelidade o que também penso e o que de fato fato ocorre....É de fato lamentável

ladytramp disse...

Fico muito feliz em encontrar um texto tão nobre e real do mundo que abriga as idéias do que seja a sociedade Arapiraquense. Parabéns Davy Sales... Vc é um verdadeiro cientista social... tenho orgulho de você!

Mônica Oliveira disse...

Perfeito o seu comentário sobre o comportamento dos jovens da classe média e sua insuportável mania de ouvir música ruim em volume altíssimo como se o espaço público pertencesse exclusivamente a eles. Nossos ouvidos é que pagam o preço desse hábito detestável.

Davy Sales (2012). Tecnologia do Blogger.