a banalidade da violência em arapiraca

Já escrevi em outro momento (aqui, aqui e aqui, e aqui também) algumas palavras sobre a violência. Quero enfatizar que a violência é alimentada pela ausência de sociabilidade familiar na infância e falta de reconhecimento social na adolescência. Estes são os principais combustíveis da banalidade da violência entre nós. Nesta quarta-feira, depois de deixar a faculdade onde fui dar aula, segui para a praça Marques para encontrar amigos, beber café e conversar. Estavamos discutindo sobre nossas vidas e confraternizando nossas amizades. Eram 23h quando um garoto de cerca de 18 anos, matrapilho, aparentemente drogado veio até a minha mesa:

- Me dê dois reais… (o garoto)

- Não, não tenho! (eu)

- Tu não tem dois reais? (o garoto)

- Não tenho dinheiro, cara! (eu)

- Fale com jeito comigo, cê tá pensando o quê? (o garoto)

- (nessa hora, ao observar sua mão direita, ví que ele estava uma faca em punho. Levantei e me defendí com a cadeira, pois ele veio para cima. Tentei deixá-lo longe para não ser atingido por sua ira. Nesse momento ele me xinga de maneira violenta e sai)

Esse episódio, em que eu estou feliz e conversando numa praça quando sou atravessado por uma situação violenta, provavelmente é mais recorrente do que imaginamos. O crack é um dos sinais mais presentes nesses jovens que andam com facas, punhais, quando não com revólveres para atacar quando esmolam, ou para assaltar quando a situação é conviniente. Eles já não distinguem mais o certo do errado. Suas famílias já não o dominam mais. E a vida moral desses jovens ensina, nas ruas, que a vida não tem valor. Posso perceber claramente que o garoto que tentou me agredir com uma faca estava transtornado moralmente. Ele me agride porque ninguém o reconhece como um homem. Vive, provavelmente, em um ambiente hostil e, certamente, não frequenta a escola nem tem qualquer atividade produtiva.

A sociedade tem sua culpa nesse episódio, porque não é mais capaz de dar a nossa infância um espaço de reconhecimento social. Vivendo em ambientes difíceis, aprendem desde cedo a tirar vantagem de tudo. Quando o crack e o álcool entram em cena, é a fase aguda de destruição de sua personalidade. Agredir, esfaquear, matar, roubar, enfim, meios violentos de afirmação de que ele nos avisa que algo está errado. Enquanto ficarmos parados apenas com preconceitos e contraviolências em direção a essas populações marginais, elas virão cada vez mais violentas contra o sonho solidário e fraterno de cidade. É preciso que nos empenhemos em mudar essa realidade ou ela vai impedir o nosso futuro. Quero enfatizar que enfrentar essa violência não é apenas caso de mais força policial. É também, e talvez mais fortemente, uma mudança de responsabilidade civil e pública com o futuro das crianças em situação de vulnerabilidade social, ambiente onde o ovo da serpente tem abrigo.

a banalidade da violência em arapiraca a banalidade da violência em arapiraca Reviewed by davy sales on quinta-feira, março 24, 2011 Rating: 5

2 comentários:

Anônimo disse...

O que esperar de uma sociedade que se fecha em si mesmo? O que o poder público, entidades religiosas, sociedade civil organizada tem feito para amenizar este problema?
Qual a nossa responsabilidade como cidadãos?
Pecamos quando acreditamos na falência da instituição família e colocamos o Estado para educar nossos filhos, ou até pior do que isso, esperamos na igreja ou na escola a salvação desta geração.
Saber educar, seria a principio um fator primordial no meio de uma geração.

Beno

Anônimo disse...

outro dia um desses usuarios de drogas veio me atacar por que não dei dinheiro a ele então veio pra cima de mim, mesmo sendo um garoto muito menor que eu que tenho 1,91 e 95 quilos e praticante de jiu-jitsu, o garoto partiu pra cima de mim e então tive que me defender e dei-lhe umas pancadas, amarrei-lhe e chamei a policia que após mais de 1 hora apareceu mas disseram que não podiam mantelo preso, fazer o que, são as leis brasileiras que.

Davy Sales (2012). Tecnologia do Blogger.