pelo direito a vadiagem

Em Assis, no estado de São Paulo, os vadios estão sendo cassados. Se a polícia parar e não encontrar documentos que acusem que o sujeito é trabalhador, será preso. A lei dos burgueses quer a todo custo enquadrar os homens em seu esquema de exploração e escravidão, que eles chamam de trabalho. Um homem não pode escolher ser vadio, porque a sociedade capitalista o deseja no rebanho dos trabalhadores assalariados. O Estado autoritário quer encarcerar tudo e todos que não aceitam sua autoridade. Isso cheira a fascismo. Que os vadios não interrompam seu devir e que enfrentem seus perseguidores.

Jean Genet já nos avisara antes:

Sociedade, tal como vocês a constituem, eu a odeio. Eu sempre a odiei e vomitei. (...) Desde que encontrei na literatura um exultório, meu ódio tomou uma outra forma, menos pessoal: ele não se traduz mais num impulso interior mais ou menos acidental, ele se deduz de uma filosofia aclarada pela experiência. De um rancor nasce uma idéia. E essa idéia torna-se, à medida que avanço dentro de minha obra, mais serena e mais indestrutível. Eu o sei, eu o testemunho: a ordem social não se mantém senão ao preço de uma infernal maldição que aflige os seres, dentre os quais os mais vis, os mais nulos estão próximos de mim – quer isso agrade a vocês ou não – que qualquer burguês virtuoso e assegurado. Para sempre eu me fiz intérprete dos dejetos humanos, dos resíduos que apodrecem nas prisões, debaixo das pontes, no fundo da fétida podridão das cidades.

A vadiagem e o ócio é contrário à sociabilidade capitalista, que dá a uns poucos o capital e as empresas e ao resto chicote, fome e sofrimento. Mas a vadiagem só pode ser considerada crime justamente porque ela contraria o projeto das elites em acumular riquezas. Todo homem deve se submeter a um patrão tirânico e nefasto, que suga as energias e o seu futuro. Mas porque a vadiagem é considerada contravenção? Porque todo homem deve se submeter aos caprichos dessa sociedade e de sua legalidade? A vadiagem é um estilo de vida. E o homem tem direito ao ócio. Ao ocioso rico, pérolas, ao ocioso pobre, cárcere. Viva os vadios, os outsiders, os inconformados, os que não se submetem, os anarquistas, os que praticam a desobediência civil.

E Proudhon avisara também que

Ser governado, é ser mantido à vista, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, encerrado, doutrinado, exortado, controlado, analisado, apreciado, censurado, comandado por seres que não possuem nem título, nem ciência, nem virtude. Ser governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, anotado, registrado, recenseado, tarifado, medido, marcado, cotizado, patenteado, licenciado, autorizado, admoestado, impedido, reformado, endireitado, corrigido. E, sob pretexto de utilidade pública, e em nome do interesse geral, ser posto sob contribuição, exercitado, espoliado, explorado, monopolizado, extorquido, pressionado, mistificado, roubado; depois, à menor resistência, à primeira palavra de lamento, reprimido, corrigido, vilipendiado, vexado, encurralado, maltratado, espancado, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, traído e, para não faltar mais nada, exibido, escarnecido, ultrajado, desonrado. Eis o governo, eis sua justiça, eis sua moral

Assim, fica claro que a campanha contra os homens e mulheres vadios ou mendigos se faz sempre com a intenção de negar suas escolhas e suas identidades, devem aceitar o aquartelamento nas favelas que as elites tão bem sabem produzir e manipular seus habitantes.

pelo direito a vadiagem pelo direito a vadiagem Reviewed by davy sales on terça-feira, agosto 04, 2009 Rating: 5

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