Sobre Cientistas Sociais em equipes gestoras de políticas públicas

Antropólogos, Sociólogos e Cientístas Políticos são aquilo que a academia chama de Cientistas Sociais. São profissionais que se ocupam em desvendar a lógica que permite uma dada sociedade funcionar. A sociedade é mais do que a soma dos indivíduos que vivem nela, é uma realidade que se constrói para além dos projetos individuais de cada cidadão. Aqui reside justamente a possibilidade de contribuição dos Cientistas Sociais para o conhecimento de quem somos, enquanto povo, que caminho estamos a seguir e como enfrentar nossos problemas para garantir um futuro. Observo que não há, salvo raras exceções, cientistas sociais trabalhando nas equipes multidisciplinares que coordenam as políticas públicas de enfrentamento dos graves problemas que nossas sociedades possuem: violência, pobreza, fome, vulnerabilidade. Parece-me correto supor que haja um desconhecimento de como antropólogos, sociólogos e politólogos poderiam juntar-se aos assistentes sociais e psicólogos para fazer avançar a aplicação de tais investimentos. Cientistas Sociais são pesquisadores, estudam a sociedade e a cultura no nível profundo, oferecendo insights frutíferos donde os administradores públicos poderiam extrair benefícios concretos.

Tome-se o problema da pobreza em Arapiraca. Há quanto tempo nosso serviço social atende as comunidades pobres? Quais as mudanças? Quais as perspectivas de mobilidade social? Observe-se que a prefeitura local atende regularmente uma centena de famílias em situação de risco e vulneráveis socialmente. É um trabalho muito interessante na medida em que evita que a tensão social cresça, mas ela é um tanto estéril para lograr mudanças reais nas vidas miseráveis desses quase-cidadãos. Não vou aqui fazer um inventário dessas ações mas basta entendermos que uma ação contra a pobreza necessita de um estudo que mostre de maneira clara quem são, onde estão, o que fazem, quais seus projetos de futuro, o que esperam da cidade, o que téem a oferecer a cidade?

Não bastam os dados de natureza puramente econômica mas os modos como os pobres (re)inventam suas existências em condições tão difíceis. Se o governador ou o prefeito pudesse se utilizar de pesquisas científicas sobre as populações que comandam (não apenas dos pobres, mas de sua classe média e suas elites), seria certo supor que suas ações teriam mais êxito e atingiriam de maneira mais direta os reais problemas enfrentados por estes estratos pobres de nossas cidades.

Estudei a mendicância recifense durante meu mestrado e ali percebia claramente que a pobreza é mais complexa do que sugere os relatórios oficiais e o conhecimento institucional sobre essas populações. Cada cidade constrói e mantém a pobreza que lhe interessa. Se deseja enfrentá-la deve conhecê-la, através de pesquisas que equacionem as redes de relações que os pobres participam e como a cidade poderia ampliar esses laços. É preciso que as prefeituras tenham cientistas sociais em seus quadros. A realidade visível não é a única possibilidade de existência social. Cada cidade possui uma alma, uma cor e um movimento próprio, que diz respeito ao modo como cada população mantém uma sociabilidade, solidariedade e reciprocidade de contornos locais. Podemos interferir sobre ela e, se desejarmos, mudar o seu rumo.

Sobre Cientistas Sociais em equipes gestoras de políticas públicas Sobre Cientistas Sociais em equipes gestoras de políticas públicas Reviewed by davy sales on quinta-feira, junho 26, 2008 Rating: 5

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