Sobre violência, mendigos e autonomia

Os mendigos carregam consigo o estigma de doentes, loucos, perdedores, ociosos, vagabundos, marginais, escória, lixo da sociedade. Sua sujeira e doenças causam um mal-estar nas pessoas, que saltam a calçada para não serem contaminadas pelas colônias bactérias que crescem impunemente em seus corpos. Caminhamos, via avanços das biotecnologias, para uma distância no nível biológico. Se hoje não se reconhece estas populações como pertencentes a nossa órbita de humanidade, é provável que cada vez mais eles se tornem em tipos bem diferenciados, como os homens-gabirú?

Com crescimento das cidades há a necessidade de gerir o tecido urbano e toda "essa gentalha” aparece como um mal que deve ser extirpado. Vadios, vagabundos, errantes, flanêurs e loucos sujam a cidade "tecnicamente planejada para ser bela e sem problemas". São muitos os esforços para esconder a mendicância, abafar os mendigos, reeducá-los, torná-los a assistidos de nossas instituições. Como ensina Stoffels, eles sempre surgem e testemunham contra a sociedade, porque sua condição expõe as contradições do sistema, e suportam pessoalmente o estigma nos limites da miséria.

São, antes de tudo, outsiders, andarilhos, nômades, errantes. Sua dignidade está em teimar viver, apesar da exclusão extrema, em histórias de vida , a reconstruírem suas vidas no meio da rua, fazendo-nos todos voyeurs de sua privacidade inventada no espaço público da cidade que não pára. Sua prática do pedido é um desvio em relação a moral econômica, mas o desviante não está fora da cultura, é que ele faz uma leitura divergente dela, como diz Velho. "Não é que o inadaptado veja o mundo sem significado, mas vê nele um significado diferente do que é captado por indivíduos ajustados".

O desvio de que são acusados é antes um ponto de vista do acusador; cada indivíduo anseia por decidir o que deve ser vivido, segundo suas experiências, não submetendo-se sempre ao consenso do que é colocado como correto ou incorreto para se viver, porque são múltiplas as leituras possíveis do mundo. A presença ameaçadora dos mendigos, prostitutas e delinqüentes na rua, reforça na cidade o desejo de controlar o fluxo possível dos elementos disformes.

Uma das funções das instituições oficiais é reprimir a desordem e o caos através do empenho em limpar a cidade, ter controle sobre a marginália, o espaço apropriado por indigentes que se afirmam e querem existir. Os agentes que operarão o rito de passagem nas instituições, estão vinculados ao aparelho repressivo ou assistencial. Tais agentes estão contaminados por uma forma de ver a mendicância sob as categorias da periculosidade, vadiagem, ou doença mental e suas políticas são, a priori, uma forma de trazer a cura, através da apreensão e tratamento.

Vive do lixo do consumo desenfreado de nossas cidades. Sendo lixo, excluído, sem reconhecer patrão nem autoridade, nem ser por ninguém reconhecido, a interferência operada junto às hordas surge como prática saneadora de um mal, limitando a ação destes indivíduos ao seu julgo, aos interesses incontestes dos grupos com poder legitimado.

Mendigos, esmoleres, andarilhos, outsiders existem em toda sociedade humana, não é fenômeno apenas local ou contemporâneo. Em todas as sociedades há indivíduos que escapam ao controle da tradição e forjam novos tipos de sociabilidades, colocam sangue novo num corpo social liso e sem asperezas, como bem ensina Maffesoli. Estão nas ruas com seus pertences ao lado, indicando a possibilidade, fortuita ou imputada, de ir embora.

Fixar é dominar, diz Maffesoli. Então sua errância pelo tecido urbano não deveria tingir-se tão somente em um tom que designa sua loucura, mas a própria idéia do devir humano, da impermanência das coisas, a busca pelo qualitativo, de tudo que foge ao controle e a cifra (Maffesoli).

Um animal acuado que em certo momento recria sua ação sobre o mundo, e no abismo das latrinas, vielas, becos e calçadas reconectam-se, de modo a permitir uma sobrevivência moral e material, reatualizando a idéia de humanidade, nos remanejos simbólicos e físicos, circulam dentro e fora da ordem social.
Sobre violência, mendigos e autonomia Sobre violência, mendigos e autonomia Reviewed by davy sales on quarta-feira, abril 09, 2008 Rating: 5

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